Entendi o grande problema dos anestesiados: a falta de pontuação. A nostálgica vida mal vivida nos corrompe simplesmente pela falta de pontuação. Quem me dera se eu fosse a mestre da norma culta e conhecesse todos os detalhes machadianos. O segredo para o fim da eloquência não desejada está num inesperado ponto final. Se a cada caminhada sem rumo colocássemos um ponto... Como as coisas seriam mais fáceis e visíveis. Cito, por exemplo, o imenso significado de termos a presença de um ponto de interrogação em frente ao espelho. Penso em quão melhores seríamos caso houvesse um ponto de interrogação adesivado em nossas testas. As pessoas se conheceriam mais e entenderiam que não há como ter um caso de amor ou um relacionamento produtivo sem antes ter um romance com a própria vida. É intrigante como os olhares jovens estão cada vez mais fétidos e distantes. Fico atônita ao estar tão próxima de futuros suicidas que desconhecem a maravilha do mundo, sempre tão alienados em seus respectivos microcosmos. O ponto de exclamação refletido no olhar de cada criança, jovem, adulto ou idoso faria toda a essência final. O mundo só precisa de menos conformismo e mais audácia, mais coragem, mais exclamação e, consequentemente, mais interrogação. Precisamos de pessoas que planejem em vez de desejar, que lutem ao invés de esperar. Precisamos de parênteses em todas as nossas atitudes. Parênteses estes que enfatizarão os nossos amores, nossos reais objetivos e os nossos projetos possíveis e alcançáveis. Vou dar um basta nas palavras difíceis e em textos relativamente chatos (como este aqui). Percebi que a grande falta da minha vida é a vírgula. Tudo de que preciso é uma vírgula para ocultar meus problemas passados e dar continuação à minha incompreensível e surpreendente peça de teatro. Só quero uma folha de papel e um lápis bem apontado. Estou pronta para criar minha história. Não há destino que impeça a força de liberdade de um sonhador. Não vendam seus sonhos!
Escrito em 02.09.2008
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