Seria mais fácil, se não fosse assim. E aí carregaria a
certeza de que o tempo não vai embora, como um pássaro, alçando voo, que se
despreocupa com o resto das coisas lá embaixo, reafirmando a antinomia diante
da força do vento e da leveza eterna dos detalhes mais simples. Vez ou outra é
válido olhar pra trás e se morder de nostalgia ao pensar nos tempos em que
andar “fosse” engatinhar. Seria mais fácil, se não fosse assim. Engatinhando,
tenho a certeza (de um pássaro) de que o tempo não vai embora. Enquanto o mundo
corre (aí fora) desenfreado, numa pista sem linha de chegada e sem prêmio ao
primeiro lugar. Sim, também já corri. Seria mais fácil, se não fosse assim. Não
entendia a frustração da queda nem os tropeços que quase me arrancaram as unhas
dos pés, a cabeça dos dedos, os dedos, os pés, as pernas, o tronco e a mente.
Optei por não culpar as estrelas. Talvez por escasso o meu fôlego pro acaso.
Seria mais fácil, se não fosse assim. No meio do caminho, decidi desfazer-me
daquilo que me fez errada, culpada, calada, temente, descrente (“enfrente, não
deu!”). Seria mais fácil, se não fosse
assim. Resolvi, enfim, aceitar que a vida é bem e mal. Não há embate entre um e
outro. Não existe impasse entre um ou outro. A vida é um todo; há momento pra
tudo e há um tudo no todo. São sempre dois, três, quatro e um turbilhão do que
sentimos. Ah, (e como!) seria mais fácil,
se não fosse assim. Pudera eu nunca ter
me desencontrado no abismo do previsível. Aqui, sentada, no labirinto da pista
(de dança), o destino me lança e nele mal acredito. A recompensa é indeclinável
quando depreendida das várias saídas a que podemos recorrer. E eu decidi
esperar, engatinhar, dançar, transcorrer. Catando aos poucos (do chão, do
portão, da janela, do telhado) os pedacinhos do muito e do nada que fui um dia.
Pessoa, encontro, fascínio e uns tantos de mim mesma prontos para serem peças
de outros tantos quebra-cabeças . E, finalmente, levantei-me para andar. Quem
dera eu pudesse, a penas (de pássaro), apenas engatinhar. Seria mais fácil, se
fosse assim. Para cada passo, fidelidade ao que sinto. Para tudo que faço,
intensidade e instinto. Felicidade é poder escrever, na minha última página,
que brinquei com a vida, com o medo, com o tempo. Fantástico dizer que não se
precisa de muito. Somos o conjunto de tudo de que não precisamos para sorrir.
Convenci-me de que destreza é abrir um sorriso (ainda que alheio) e, como um
anel, guardá-lo (bem guardadinho). Aquele sorriso que a alma estica, o “amor-ternura”,
o olhar engrandece e a boca desenha, copia e cola pra sorrir de novo, noutro
beijo, noutro sorriso. E noutra mão segurá-lo, só pra guardá-lo (como um anel)
bem guardadinho. Se não fosse assim, não seria eu. Se não fosse assim, não
teria você. Se não fosse assim, não caberia você em mim (não caberia você e eu).
Até que comece de novo: engatinhando, com a certeza (de um pássaro) de que o
tempo não vai embora. E o pássaro canta um pouco de tudo que já lhe mostrei e
de todas as outras músicas que nunca mandei e escutei pensando em como seria
ser sem você, (você) sem mim. Dois, três, quatro e um turbilhão do que
sorrimos. Deixe-me sentir, deixe-me sonhar. Deixe-me não impedir minha mão,
aqui, a segurar (seus outros mil sorrisos)! E deixe (soltar), quando (e se)
eles quiserem voar e espalhar por aí, no fragor das asas, o mesmo estrondo do
que escrevi... Encantando-se por outros muitos sorrisos. Sorriso por inteiro.
Sorriso pelo cheiro. Sorriso ao decifrar (aconchego pelas mãos, enquanto tentam
segurar). E eu sorrio por um risco (da
melhor coisa que nunca tive). É o que mais quero arriscar. Meu sorriso aberto;
discreto; constante; distante; de lado; ousado. Precisa d’outros mil escorrendo
por entre os céus da minha boca, de dois em dois, caindo (como pena) na palma d’outra
mão. É o que mais dói sem tocar. (Seria mais fácil, se não fosse assim?) Dois,
três, quatro e um turbilhão do que sentimos. Eu que mais ri, no truque de gargalhar.
Dois, três, quatro e um turbilhão de sorrisos. (Não é difícil) Sorriu pra mim.
Seria nada, se já não fosse assim.
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