Decidi passar a tarde de olhos abertos. Ficar deitado em uma cama sem conforto algum é inconsolavelmente atordoante. Os meus dois braços estavam machucados por agulhas que levavam soro para todo o meu corpo. Estava sempre atônito e cheio de dúvidas. Por mais que tentasse, não conseguia entender o acidente pelo qual passei. Senti minha cabeça dolorida, embora não pudesse vê-la ou tocá-la.
Escutei o barulho de passos femininos vindo em minha direção. Fechei os olhos por impulso. A enfermeira aproximou-se de mim e, mesmo que a minha vontade fosse de sair correndo dali, não podia fazê-lo. Ela segurou a minha mão e sentiu minha pulsação. Eu senti o perfume, o perfume exótico e levemente adormecente que tomava conta de todo o quarto. Como era bom ter aquela enfermeira por perto! Novamente por impulso, perguntei a causa do meu acidente. Ela continou atenta aos meus batimentos cardíacos e eu continuei fissurado no perfume. Resolvi chegar mais perto dela, para que assim pudesse intensificar o cheiro. Quando menos esperava, minha visão apagou-se e o cheiro foi se afastando gradativamente de mim.
Abri os olhos e a visão voltou como um raio violento. A luz branca e intensa me deixou tonto. Mas percebi que nesse instante, minha mão segurava o mouse do meu velho laptop. Lembrei-me do jogo que deixei aberto por uma questão de segundos, apenas para saciar minha sede. Aquela era a minha vida e a minha maneira de conquistar as vitórias mais excêntricas possíveis. Meu nome é Paulo. Meus cabelos são castanhos e o meu corpo é todo trabalhado. Adoro malhar e conhecer novas pessoas. Moro em uma mansão de aproximadamente um milhão de dólares e nesse momento estou numa cama de hospital respirando o odor eloquente de uma enfermeira.
Sinto os olhos escurecerem. Vejo estrelas. Estou estatizado frente ao computador, sentindo todas as dores do meu acidente. 'Como a mão da enfermeira é macia!' Ouvi alguém gritar-me:
--- Marcos o jantar está na mesa.
Levantei-me. Os aparelhos do hospital fizeram um barulho muito alto. A enfermeira foi desmanchando-se rapidamente. O perfume perdeu a essência . O Paulo morreu.
Escrito em 20.08.2008
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