Reflexos de uma vida

Comecei a analisar todos os detalhes. Eu estava parada, perplexa, irremediável e inconsolavelmente pasmada. Tentava me aproximar da imagem. Percebi como aquele rosto havia mudado. Entendi que não mentiam ao afirmar que o tempo não pára. Há séculos não me prendia diante de alguém. O olhar vencido, perdido e deixado em algum lugar. Olhar de quem viveu pouco e desistiu. O mesmo olhar de quem viveu tudo e persistiu. Aquele olhar me chamava a atenção, me fazia ter vontade de chorar. Vontade de morrer. Vontade de viver um pouco mais bem vivido. Vontade de fazer bem feito. Vontade de errar. Errar, errar e aprender. Errar e fazer de novo, caprichado, contornado. Com direito a todos os desenhos e todas as legendas. Parei de focalizar o olhar e me peguei no sorriso. O sorriso completava o olhar. O olhar era o pai, o sorriso o filho. O sorriso era o perímetro, o olhar , a dimensão. O sorriso brilhava. Se fechava. Se abria. Os lábios o faziam movimentar. Movimento uniforme. Sorriso planejado e efêmero. A pele já gasta. Preocupada. Tensa. Sem proteção. Comecei a sentir uma certa fobia, comecei a me arrepender de ter estado ali por aqueles instantes. Me curvei. Deixei o espelho e ao lado dele todas as minhas marcas podres e incuráveis.
Não tenho imagem e não acredito em reputação. Hoje sou eu mesma, sem sombra e sem dúvidas. Os defeitos antigos foram jogados fora ou simplesmente arrastados pelo vento mágico de um tempo sem piedade.
Não, o tempo não pára.

Escrito em 20.08.2008

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