O meu coração acelerado me fazia transpirar com rapidez. Sempre mais. Molhando. Tumultuando toda a minha pele com gotículas de calor. Calor. Nos meus olhos a pupila dilatada, vibrante e esperançosa, acreditando na verdade de tudo o que acontecia. Acreditando na verdade do amor. Eu tão menina, tão inocente... Naquele instante, me decidia. Me descobria. Perdia-me em mim mesma. Descobri o número ideal pra minha rotina. Entendi o segredo do meu nome. Fiz uma média geral de como me comporto em público, em casa, sozinha. Sou minha inimiga. Inimiga íntima e traiçoeira. O barulho penetrando nos meus ouvidos. Os tons sendo emitidos a cada partícula do meu corpo. Acontecia muito rápido. Meu corpo entendia o recado. Se movimentava. Penetrava. Compenetrava. Amava. Adormecia. Sonhava. Eu estava dopada, perdida. Sonhando. O mundo idealizado pelo toque, pelo ritmo. Eu era a autora. Eu era a atriz. Eu era a letra. Eu era a música. Eu era dona. Eu era um filme de memórias jamais esquecidas. Um vídeo cheio de doenças, crenças, personagens, risos, choros. Um vídeo melhor que o possível. O vídeo do impossível. O vídeo que apenas eu entenderia. Apenas eu seria capaz de escrever, editar, reeditar. Decorar! Minha pele se arrepiava. Pude ver todos os pêlos levantando-se com vontade de escapar. Quis pular, Pulei. Quis dançar, dancei. Dança de salão, sozinha, a dois. Amei, me amei, me senti. O meu momento romântico comigo mesma. Tirei meus óculos. Rasguei meus papéis. Pintei a parede do meu quarto de batom. Bordei todos os meus lençóis ainda feridos. Subi na cama. Adorei ter comprado aquele colchão macio. Não me arrependi de nada. Nada melhor do que não pensar por alguns momentos. Nada melhor do que poder pensar. Acabou. O coração voltou a pulsar no ritmo correto. O suor das mãos havia secado. A música roubou-me o tempo. Desliguei o som e fui direto para o trabalho. Permitam-me existir.
Escrito em 20.08.2008
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