in(completo)

O meu jogo não tem regras, apenas surtos. Inúmeras vezes me pego preso a um ideal inalcançável e aí a verdade de que tudo muda e de que o mundo não é meu vem à tona. Não posso negar que já pensei em sair correndo pelas ruas à procura de uma liberdade que talvez nunca tenha me preenchido por inteiro. Sei que o conceito de liberdade já me digeriu, me induziu, me corrompeu, mas nunca como um todo, nunca como possibilidade. Sensibilidade. Chega a ser engraçado a maneira como as pessoas me olham, elas não me percebem, não entendem como eu as devoro pelo olhar e como um sorriso doado, por caridade ou piedade ( que seja) poderia dar um sentido a vida hipócrita que a maioria alienada leva. Sou diferente e a minha diferença me tornou comum, a ponto de me confundirem com esses tantos iguais que se relacionam com qualquer um e que falam vez ou outra de problemas insolucionados e pateticamente fúteis. Não quero falar da minha vida, dos meus conceitos , das minhas crenças. Quero expor minhas loucuras, meu medo do tumulto, meu medo da solidão, medo do incompleto, da paixão. E o meu rosto de homem, barbado, oculta a face de um sonhador controlado pela dialética de um mundo falho que me exclui e me apaga gradualmente. A ilusão de parar, desvendar os mistérios das músicas, degustar dos sabores dos ritmos e das notas e tocar a guitarra como toco o amor ainda é pouco. Procuro desvendar o outro, para encontrar as respostas sobre mim mesmo. Não sou calmo, tranquilo. Me mordo de ansiedades por dentro, da cabeça aos pés, das mãos aos ouvidos e libero o que eu sinto: a perda, a incompreensão, razão por gritos surdos e violência instintiva, não que eu seja mau por criação ou por marginalização, sou mau por natureza. Maldade de Hoobes. Sou sim, meu lobo, meu inimigo íntimo e talvez seja essa fúria não sanada que me atormente nas noites mal dormidas e me deixem por alguns instantes desacreditar na minha capacidade indiscutivelmente brilhante. Nasci pra viajar nos mundos dos doentes amantes das sabedorias e quando nao me cederem as passagens , viajo nos livros em que me encontro sempre em diversos mundos e em migalhas de felicidade. Já passei por momentos que não facilitaram os caminhos e eu confesso, ainda que orgulhoso, que me perdi no caminho de volta pra casa. Já me senti sozinho, no quarto, chorando, em Pânico, me procurando e o reflexo do espelho já não me era suficiente. Perdi. Chorei. Ainda choro. De Saudades. De Amor. De Saudades. De amor. De saudades. E o meu amor não explicável, encontrou o complemento, suplemento, outro amor. E agora que não estou sozinho morro de medo de perder, perder de novo e sofrer e chorar de saudades. Então pra que eu não fale dos meus problemas insolucionados, inesquecíveis e que rasgam meu peito, prefiro minhas loucuras, meu medo, meu som. Vou tocar pra que vocês me conheçam e temam me perder. Vou estudar pra que meu mundo não se feche como a maioria, não nasci pra muitos amigos, muitos abraços , muitas ideias. Sou foco do meu foco em mim mesmo e o abraço de que preciso e clamo vem de uma mulher que vive o piano. Continuo tocando, estudando, viajando, chorando e temendo. Continuo batendo, espancando, me corroendo, gritando. Não é que eu espere ser sempre lembrado, mas é que eu desejo ser muito bem lembrado. Como uma música que penetra, invade, transforma e atinge os mais ínfimos sonhos.

Escrito em 15.10.2009

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