Sob a perspectiva do título: “Malévola”.



Dentre todos os tópicos a serem discutidos, a brilhante atuação de Angelina Jolie é inquestionável. A atriz ratifica-nos a certeza de que não é apenas um rosto maravilhoso mas também um aglomerado de talento, audácia e sedução. Várias cenas são fascinantes, e, se não fosse o desempenho estonteante da bela intérprete, é bem provável que não nos causariam tanto impacto. Vale enfatizar, também, a produção maravilhosa do enredo. O filme reúne a grandiosidade nos mínimos detalhes e explora, com perfeccionismo, o encanto dos figurinos, da maquiagem e do cenário. Até então, não há do que reclamar. A questão começa com a proposta dos trailers, antes mesmo da estreia no cinema. Ora, aqueles que conhecem o conto “A Bela Adormecida” bem sabem que a trama em análise em quase nada condiz com a versão original da estória. A priori, ao assistir ao trailer, alimentei-me da expectativa de que o filme teria enfoque na extrema maldade da vilã. Afinal, a Disney sempre destacou Malévola como a personagem mais cruel e tenebrosa de sua cinematografia. Pois bem, o resultado foi paradoxalmente o oposto. O trailer induziu-nos a ressaltar a malevolência da protagonista (ou seria Aurora a protagonista?!), já que as cenas e tipografias utilizadas explicitavam a venda de uma versão fiel à original. Não se deve negar que existem inúmeras possibilidades de interpretações de uma determinada obra. No entanto, o que me chocou foi o fato de, sordidamente, matarem, a minuciosas facadas, a vilã mais engenhosa já nos apresentada pela imponente corporação de entretenimento. Não se trata, então, de uma incompatibilidade entre as estórias, mas de nítida controvérsia entre ambas. É notório que, em “Malévola” (e as aspas também fazem jus à ironia do título), a personagem não possui características de uma vilã, a não ser num curto período de, aproximadamente, dez minutos do filme. Acredito que a intenção da roteirista Linda Woolverton tenha sido a de dar vida a uma personagem semelhante a nós, posto que a maioria dos cineastas, agora, prega a humanização das personagens fantásticas. O ser humano é exatamente este mesclado de defeitos e qualidades e, basicamente, movido pela emoção. A raiva, provocada pela traição, despertou na "mocinha" o incontrolável desejo de vingança. A cena em que o feitiço foi lançado é indubitavelmente a mais bem elaborada e a que mais ilumina a magnitude da atuação de Jolie. Encontra-se, tão somente ali, a Malévola que já conhecíamos. Há diversas falhas no decorrer do roteiro, tais quais: a improvável ingenuidade/infantilidade de uma adolescente de 16 anos; a não-explicação do que levou as fadas a temerem a Malévola; a falta de reação/comoção/compaixão dos habitantes do reino de Moors quando as asas de Malévola são roubadas, além do desgostoso fato de que o próprio roubo das asas deixou a desejar. A Malévola apresentada neste filme é uma “pessoa” sem personalidade definida, e não conseguimos entender/conhecer a personagem. Não é vilã, não é mocinha. Perdemos o ápice ao não vê-la transformar-se em dragão. Quem não esperava por esta cena?! Ok, também não sou a favor dos extremos, porém a releitura é abarrotada de falhas. Qual é o grau de relação entre a protagonista e Aurora? Muito mal explicado surgiu o arrependimento após o lançamento do feitiço, tendo em vista que a trama sequer aprofunda o relacionamento das duas; apenas expõe o contato quase distante durante o crescimento da princesa. O próprio relacionamento entre Malévola e Stéfan não é desenvolvido. A personalidade do rei também é indefinida. A única certeza, quanto a ele, é de que, no desenrolar da vingança, enlouquece. Enfim, muito açúcar melado incoerente (e a redundância não chega a ser doce, perto do enredo). Ainda, esfregam, sobre os nossos óculos 3D, a ideia de que não existe amor à primeira vista, antes, tão enaltecido pelas produções. E agora, Disney?