Oitava Série

Eu tinha quatorze anos. Quatorze anos bem vividos. Tão imatura e ingênua. Criança apaixonada é outra coisa. Amor de criança é sincero. Não é passageiro. Não tem interesse. Amor de criança é aquele sono que não tem fim. Aquela vontade de não fazer nada além de curtir nosso pequeno mundinho. A partir do momento em que eu te conheci percebi que já não era criança. Era uma adolescente sem rumo, sem objetivo e sem problemas. Ah se eu pudesse reviver meus quatorze anos. Foi sim. Você quem me ensinou a ser amiga. Queria ter sido mais. Queria ter sido sua vida. Seu sonho. Seu primeiro amor. Queria. Como queria. Você me escolheu pra amiga. Quem sabe não foi o destino que quis assim. Mesmo amiga te fiz sofrer. Errei com você. Errei quando o que eu menos queria era te perder. Perdi. Por um erro bobo. Eu era criança. Mas aí aparece você com seu jeito de moleque homem grande. Aparece você pra corromper minha ingenuidade. Pra me deixar inquieta. Acordada. Sonhando. Aparece você pra colocar em mim características que eu ainda não tinha. Me aparece você pra me deixar ansiosa. Pra me deixar nervosa. Pra me fazer roer as unhas. Pra me fazer roer os dedos na falta de unhas. Aparece você com aquele sorriso bobo de quem não quer nada. Aparece um menino. Um herói. Um homem sem cabeça que fez minha cabeça. Que fez minha oitava série. Que me fez perdida. Acabada. Amando. E a velha infância? Música pros meus ouvidos. Carinho pros meus cabelos. Se eu pudesse teria te beijado. Éramos cúmplices. Quase cúmplices. Você sabia tudo. Menos que eu te amava. Amor? Amor de criança. Aquele que é pra sempre, mesmo que o pra sempre sempre acabe. Aquele amor da Cássia Eller, do Nando Reis. Amor dos Tribalistas. Tudo que era música era escrita pra gente. Pro nosso mundo. Velhas histórias. Velhas lembranças. O despertar de uma paixão. A minha paixão. Meu primeiro amor. Quem me dera se fosse com você que eu tivesse dado meu primeiro beijo. Ficou pra memória. Queria ter tido mais. Como eu queria. Queria de volta. Nossa vida. Minha série. Velha infância.

Escrito em 29.07.2008

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